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Segunda-feira, Março 21, 2005
Ciça, Thá e todos os leitores mais pacientes do mundo!!!hehehe
O tempo tá curtíssimo, por isso ainda não escrevi relato.
Mas vou deixar aqui o dia de ontem, que tem a ver...
Beijos
Ontem fomos fazer compras. Eu num mau humor terrível, depois de uma discussão boba com meu marido.
Pra completar, sou pechincheira e curiosa, fiz questão de atravessar a cidade pra conhecer o supermercado novo.
Depois das compras, chego no caixa.
A moça: "Boa tarde"
Eu, com a cara fechada: "Boa tarde, você pesa os legumes aqui?"
"Não, você tem que pesar na ferinha"
"Ai, mas que saco"
E mando meu marido voltar na ferinha e pesar tudo.
Continuo colocando o resto da compra no caixa, quando escuto:
"Por acaso você não trabalha na Sta Casa?"
"Trabalho" eu disse com um sorriso sem graça
"Eu sabia que era você, você ficou comigo enquanto eu estive lá pra ter meu bebê, foi tão bom"
Putz, meu humor mudou na hora. Fiquei tão contente por ela ter me reconhecido!
Continuamos a conversar, ficamos falando do meu trabalho por lá, depois ela quis ver a Julia (que estava junto), e depois falou do seu bebê, que já está com 4 meses.
4 meses!!! Um serzinho que veio ao mundo e eu estava alí perto, minutos antes dele chegar, ajudando sua mãe a ter força e coragem para colocá-lo no mundo.
E durante todo o tempo em que a compra foi passando, nós conversamos.
E antes de ir, ela me agradeceu por aquele dia e também disse que nunca vai esquecer da ajuda que eu dei.
Voltei pro carro emocionada!hehe
E olhei pro meu marido com uma puta vontade de dar um belo dum beijo na boca!
O que é uma discussão por besteira perto de ser lembrada por alguém que eu não sei sequer o nome, mas pra quem minha presença foi importante num momento tão marcante de sua vida.
Como é bom poder fazer um trabalho como esse! Como é gratificante!!!
E impressionate é que volta! Um dia eu fiz diferença pra ela, ontem ela fez diferença pra mim!
Devo a alegria de terminar meu dia de bem e em paz com o mundo à ela, que não vou esquecer o rosto, embora tenha esquecido de perguntar o nome!
Beijos
Ana Carol - que tá pensando seriamente em levar uns trotes da Ana Cris na faculdade em 2006!!!!!
PS. Ser reconhecida já havia acontecido outra vez, quando levei as crianças pra brincar no centro da cidade, no calçadão, onde tem um espaço enorme e fica cheio de ambulantes vendendo cata-ventos e bolinhas de sabão.
A moça veio falar comigo, perguntando se eu lembrava dela e me agradecendo. Mas dessa vez eu lembrei, até o nome. Também fiquei muito feliz!
Ana Carol 12:30 AM
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Quarta-feira, Março 16, 2005
Leitores queridos!
Estou para relatar a última sexta pra vocês, e o farei assim que possível. Ainda não tive tempo mas espero conseguir hoje a noite ou amanhã.
Posso dizer que não foi um dia bom, escutei barbaridades de dar ânsia...
Quando eu relatar vocês verão que a realidade no SUS é ainda pior do que a que se imagina.
A penúltima sexta feira eu não fui pois tivemos um compromisso a noite e aproveitei a tarde (que as crianças estão na escola) para me arrumar.
É isso, em breve relato.
Um abraço grande
Ana Carol 4:10 PM
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Quinta-feira, Março 03, 2005
Minha volta
Na penúltima segunda feira, teve reunião. A Dona Coordenadora mais
insuportável do que nunca, mau humorada, irritada, irritante.
Cheia de indiretinhas, é preciso respirar fundo umas 1000 vezes.
Afe, e como é que essa daí pode ser coordenadora de um trabalho tão
cheio de grandeza e humildade se ela mesma não conhece essas virtudes????
Deixei lá então os únicos 10 reais que tinha na minha bolsa (voluntária
é obrigada a contribuir) e fui pra casa.
Meu dia de voluntária é agora às sextas feiras, e eu estava ansiosa
para que chegasse logo.
Sexta Feira, dia 25.
Deixei as crianças na escola e me dirigi ao hospital.
A Dona Coordenadora me viu de longe e eu não tive nenhum tesão de
cumprimentá-la. F*da-se ela. Eu queria era subir logo pra sala de parto, conhecer o plantonista das sextas feiras, as enfermeiras, as parturientes daquele dia.
Subi e a enfermeira de plantão era uma gracinha, muito engraçada e
super de bem com a vida! Adoro gente assim, principalmente quando elas cuidam da sala de parto!
Entrei e lá estava uma única parturiente, a Edilaine.
Me lembrei da Daniela, embora elas não tivessem nenhuma semelhança
física, nenhuminha.
Mas ela era tão linda quanto a Dani, linda, linda.
Só que loira, cabelos lisos e longos. Tinha uma voz forte, de mulherão.
E só tinha 20 anos.
Era o terceiro filho, o primeiro parto foi fórceps, o segundo normal
sem nenhum problema, ambos com oito horas de tp (apesar da ocitocina).
Ela chegou um pouco antes de mim, e já tinha 5 cm de dilatação. Quando
entrei, suas contrações estavam começando a ficarem fortes, mas estávamos conversando numa boa. Contrações de 5 em 5 minutos.
De repente, o tp começou a engrenar rapidamente e as dores aumentaram
muito. Uma contração atrás da outra, intervalo bem pequeno.
Respirávamos juntas, ela pedia massagem nas costas. Entra as
contrações, eu massageava sua nuca, um pouco tensionada, e ela cochilava por segundos.
E muito rápido ela passou a sentir vontade de fazer força, dizia querer
fazer cocô.
Eu disse que era um bom sinal.
Ela disse que queria fazer xixi.
Fui então perguntar pra enfermeira se poderia deixa-la usar o banheiro
ou se a ajudaria com a cuia, a enfermeira (que não estava na sala de parto
e não acompanhou a rapidez do tp), disse que podia usar o banheiro já
que há bem pouco tempo ela ainda tinha 5 cm.
Então fui levando seu soro, e ela parava no caminho e fazia uma força
incrível, involuntária, de pé quase acocorando.
Chegou no vaso e teve uma longa contração. Disse : "Eu não consigo
controlar, não vou conseguir fazer xixi sem fazer força"
Eu disse : "Então tenta fazer entre uma contração e outra"(como se
fosse possível segurar o xixi nas contrações de expulsivo, e de pé!!)
Ela disse: "Vou fazer cocô" e imediatamente começou a evacuar, durante
uma contração fortíssima.
Minhas pernas tremeram, de verdade. Achei mesmo que o bebê ia nascer
alí, me desconcentrei e não conseguia pensar, nem chamar por uma enfermeira, deu branco.
Ainda mais quando ela disse : "Ai, tá queimando"
Eu disse que o bebê estava muito próximo e que ele não podia nascer
alí, que tínhamos que voltar já.
Eu só pensava que ela precisava sair dali, que era impossível pegar um
bebe na privada, eu não conseguia imaginar como faria isso.
Então fomos voltando do banheiro, eu na frente com o soro e ela atrás
acocorando, só escutei ela dizer alto "pára, vc tá andando muito rápido!"
Tadinha, eu me apressei pra ela chegar logo perto da maca!
Depois era uma contração atrás da outra, e ela se apoiava com a cabeça
contra o meu peito. Eu a segurava por debaixo dos braços, ela sentada na maca, e empurrava meu peito com a cabeça.
Quando relaxava, caia pro lado e deitava a cabeça nos meus braços, como
se eu a segurasse no colo.
Num momento o Dr. entrou. Tem o nome do meu filho.
Muito calmo, tranquilíssimo, a chamou pelo nome (e não de mãezinha).
Ele me perguntou como estava indo o trabalho de parto, eu disse que
rápido e que ela já tinha vontade de fazer força há algum tempo.
Ele quis examiná-la, mas uma contração estava começando. Ela pediu pra
esperar, ele disse "claro" e me pediu pra ajudá-la.
E mesmo durante o exame ele pediu pra que eu a apoiasse, também quando
foi escutar o coraçãozinho do bebe, me pediu licença e ainda procurou uma
posição onde eu também pudesse ficar com a Edilaine.
O legal foi que ele me incentivou bastante, enquanto a Edilaine tinha
contrações, eu a apoiava pela cabeça e puxava uma das pernas, ela puxava a outra, e o médico dizia a Edilaine que aquela posição ajudava, dava apoio, super compreensivo.
E ficamos assim, ele dizia que ela estava indo muito bem, eu a
apoiando, levantando suas costas na contração e segurando uma das pernas, puxando para trás, e ela fazia força.
Em alguns momentos ela concentrava a força em cima mas era só dizer
"Edilaine, concentra em baixo, lembra da força pra fazer cocô, solta o pescoço" e logo ela se concentrava totalmente e dominava.
Sua vagina se abria e o bebê descia cada vez mais, o trabalho de parto
estava evoluindo muito bem, faltava bem pouco.
Tinha ainda um pouco de colo quando o doutor decidiu que a levaria para
a sala de parto.
E eu, que sempre ajudei empurrar a maca só até o corredor, pude entrar
até a sala dessa vez. Uma pena eu não poder ficar. Se aquela Dona
Coordenadora não fosse o pé no saco que é, tenho certeza que não haveria problema em assistir um parto ou outro, acho que o médico não impediria.
Enfim, deixei a Edilaine e apostei que seria um menino, já que ela não
sabia o sexo.
E ela continuou puxando sua perna sozinha, com uma enfermeira perto
dizendo que ela estava ótima e que seu bebê nasceria logo e muito bem.
Fui para os quartos então, entrei naquele onde gestantes com risco
ficam.
Haviam 3. A primeira com quem falei, Alessandra, estava lá pois sua
bolsa havia estourado. Ela estava com 29 semanas, que eu me lembre. Também perdeu sangue, numa quantidade considerável.
Não me lembro sobre as outras, porque fiquei conversando mais com a
Alessandra.
Foi quando a enfermeira entrou e me pediu para encaminhar uma guia ao
ultrassom.
Eu não sabia onde era o ultrassom, então a enfermeira sugeriu que a
Alessandra fosse comigo, já que era ela quem faria o exame mesmo.
E fomos.
Chegamos lá embaixo e eu achei que minha parte era só entregar
a guia e voltar. Mas a moça que recebeu a guia disse: "Ok, então pode
levá-la, entregue isso ao doutor".
Não entendi. Será que eu ficaria para assistir o ultrassom?
Parece bobagem, mas me lembrei nesse momento que os únicos ultrassons
que eu vi na vida, foram os dos meus filhos. Na verdade, já vi fitas de
algumas amigas que gravaram quando foram fazer o exame, vi o ultrassom de um sobrinho também. Mas nunca fui com alguém, nunca entrei numa sala para ser expectadora, entende.
Fiquei até ansiosa.
E ficamos papeando antes de entrar na sala, que estava ocupada.
Até que chegou o momento e o médico chamou o nome dela.
A princípio foi um grosso, não falou boa tarde nem pra mim, nem pra
ela.
Depois começou a ser mais simpático, quando perguntou o que estava
acontecendo, seu nome, etc. Foi mais gentil.
Então ela se deitou, eu sentei na cadeira onde fica o pai ou o
acompanhante.
O exame começou.
Que coisa mais maluca, eu até fiquei emocionada!!!
O bebê estava cefálico, mas não dava pra ver muito seu rostinho, ele
olhava pro bumbum da mãe.
Minha vontade era de perguntar um monte de coisas, mas fiquei
quieta, olhando.
Só não resisti e, como todo "pai" curioso, hehe, perguntei sobre o sexo, se
dava pra ver!
O médico disse que não estava conseguindo ver. Ah, que pena, a
Alessandra estava bem curiosa.
E, terminado o exame, ele nos explicou que ela realmente perdeu um
pouco de líquido, e que o sangramento era um pequeno descolamento, além do que, a placenta estava prévia.
Poxa, parecia grave. E eu não resisti mais uma vez, pedi desculpas e
fiz perguntas.
"O líquido pode ser reposto doutor?" E ele disse: "Sim, ele se repõe"
"Nessa altura da gestação, a placenta ainda pode subir?" Ele: "Pode
subir sim"
"E quanto ao descolamento?" Ele: "A placenta ainda pode aderir
totalmente ao útero"
Uau! Adorei as respostas. Não sei quais as chances de tudo ficar bem no
caso da Alessandra, mesmo com repouso, muita água, medicamento,
etc.
Mas já dá um alívio quando não fazem terrorismo, além do que, é bom
saber que qualquer um desses probleminhas isoladamente não são motivos para desespero, já que podem se resolver.
Enfim, estava dando minha hora. Eu precisava ir embora.
Dei minhas dicas pra Alessandra enquanto subíamos as escadas.
No penúltimo andar, saía do elevador a maca com a Edilaine. Linda,
recém parida.
Sim, eu ganhei a aposta! Naceu um menino!!!
E ela me agradeceu muito, disse que foi muito bom eu estar com ela,
etc.
Ai, que delícia!
E dei tchau pra Alessandra, pras enfermeiras, desci pra sala das
voluntárias e nem dei bola pra cara de * da Dona Coordenadora!!!
Só disse um "Boa tarde, até semana que vem" e vim embora feliz da vida.
Como é bom passar o dia perto de mulheres tão cheias de luz, de força,
de feminilidade.
Enche a gente de satisfação!
Ainda mais quando num mesmo dia a voluntária faz o papel de doula e de
"pai" curioso com as gestantes que acompanha!!!!!!!
Um beijo e até a próxima sexta!
Ana Carol 2:00 PM
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Sexta-feira, Dezembro 10, 2004
Noticia ruim...
Estou deixando a Sta Casa.
Problemas na família com minha mãe e irmãs, mais o fato de não ter com quem deixar meus 3 filhos que entraram de férias são os motivos do meu afastamento.
Claro que estou triste pois ser voluntária é algo que gosto muito, me faz um bem danado, além do que, faço esse trabalho de todo o coração.
Mas espero que seja temporário, digamos que eu seja uma voluntária de férias! hahahaha
Ano que vem, volto pra sala de pré parto ajudar aquelas prestes a dar à luz!
Mas não deixem de visitar o blog. Não vou escrever relatos mas de vez em quando, vou colocar passagens do que vi e vivi por lá nesses meses de voluntariado.
Beijos a todos os visitantes
Ana Carolina
Ana Carol 9:24 AM
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Domingo, Novembro 21, 2004
Sem tempo para relatar...
Mas não me contive e escrevi como foi o parto de uma auxiliar de limpeza que lavava os vidros da sala de parto na ultima quarta feira.
Clarice morava na roça. Ela e toda sua família.
Trabalhavam carregando cogumelos, ela, marido e os dois filhos.
Na roça, segundo ela, não dá pra parar e pensar em saúde, mas só em encher as cestas de cogumelos. Por isso, nem desconfiou que algo estava "errado" quando durante alguns meses sua menstruação vinha pouca e escura e mais parecia borra de café.
Clarice estava era grávida, mas nem sabia.
1986, final de copa do mundo. Estavam todos na casa da madrasta de Clarice quando logo no começo do jogo ela começou a sentir umas dores que pensava ser na bexiga.
"Ëta dor forte, tô com problema na bexiga, deve ser infecção".
Anda de um lado, do outro, faz xixi e nada da dor passar.
A madrasta então recomendou que ela tomasse um banho bem quente pra ver se a dor melhorava. Enquanto isso, preparava um chá de quebra-pedra pra Clarice. (Chá de quebra-pedra é excelente pra infecção de urina).
O marido e o resto da família continuava a ver o jogo, com pena da Clarice que tava com dor na bexiga e não conseguia assistir justo a final.
A Clarisse saiu do banho, e foi logo tomar o chá.
Tomou. E segundo ela:
"Foi descer o chá e parecia que tinham colocado uma mão dentro de mim que empurrava tudo pra baixo"
Ela disse à madrasta : "nossa, parece que vai sair minha bexiga de tanto que empurra".
A madastra olhou de lado, pensou, demorou a responder e disse: "Minha filha, o que vai sair não é sua bexiga. Acho que vai é sair um bebê! Cê tá é grávida!"
O marido, entretido com o jogo, foi alertado e não acreditou.
E sairam os 3, Clarice, marido e madrasta para pegar um ônibus até a cidade, e ter o bebê.
Clarice já tinha muitas dores, e chegando bem perto do ponto de ônibus...
"Travou."
"O que travou Clarice?"
"Minhas pernas, não dá mais pra andar."
"Mas tem que subir no ônibus mulher."
"Então me carrega que eu não posso mais andar, travou."
O Marido e a madastra a levantaram, cada um de um lado, com as pernas abertas. Pegaram meio de mal jeito, Clarice começou a tossir.
Colocaram Clarice no chão, que tossiu mais forte e sentiu escorregar. Deu um grito e segurou pelas perninhas. Era a bebê que foi literalmente cuspida, ou tossida, entre suas pernas.
Ela estava de calças e o marido segurava a cabecinha. A bebe dentro das calças da Clarice.
Por sorte moravam bem perto dois policiais, que o marido foi correndo chamar para levá-los a cidade.
A madrasta, mesmo contra a vontade de Clarisse, lhe baixou as calças no meio da rua e pegou a neném.
Chegaram os dois policiais, Valdinei e Cícero.
Valdinei cortou o cordão umbilical, pegou um fio de sua farda (que se chama fiel ou algo assim) e amarrou o cordão.
Ele e Cícero levaram em seu carro Clarice e sua filha para a cidade serem cuidadas no hospital.
A história quase inacreditável da bebe que nasceu dentro das calças da mãe no meio da rua chamou a atenção dos telejornais, que vieram fazer reportagem.
Enquanto Clarice tentava entender como não pode perceber que estava grávida, o Gil Gomes noticiava em rede nacional: "Enquanto o Brasil perdia a Copa do Mundo, um bebe nascia no meio de uma rua em Mogi das Cruzes..."
Hoje a bebê já tem 18 anos e vai se casar em janeiro.
O nome da bebê? VALDINÉIA CÍCERA, em homenagem aos dois policiais, que também serão convidados para seu casamento.
Parto da Clarice da Silva Florentino - auxiliar de higiêne
Ana Carol 9:47 PM
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Sábado, Outubro 30, 2004
Continuando.....
Nas minhas visitas encontrei o João. Ele acabara de se tornar pai. Bem humilde, engraçado, sorridente, bem humorado. Sabe muito sobre humanização do atendimento médico! Mesmo sem nunca ter ouvido falar em humanização.
Ficou pelo menos 20 minutos conversando comigo, me contando que já apresentou uma proposta a um amigo vereador, há uns 5 anos atrás, para que melhorassem o atendimento nos postos de saúde e nos hospitais.
Falou que percebe o momento do parto como um momento delicado, onde a mulher precisa de apoio, e que ele admira muito o trabalho das voluntárias por isso. Lamenta muito que o pai não possa acompanhar o pré parto e o parto, ele acredita que seria muito importante para sua esposa se ele tivesse participado de tudo.
Ele comentou sobre ser chamado pelo nome, sobre não ser apenas mais um número, sobre ser ouvido nas consultas,...
E ele falou de um modo geral, não só em obstetrícia. E terminou seu discurso dizendo: "Precisamos em primeiro lugar de respeito, em todos os sentidos. O que vem também é consequência da relação respeitosa, amiga e sincera entre o médico e o paciente. Tô errado?"
Não João. Você está certo.
Voltei depois pro pré parto. Uma moça havia chego, estava com muita dor, não precisou do soro.
O jeito como ela pegava na maca, puxava os cabelos, dizia que não iria aguentar, começou a me lembrar meu parto normal no hospital.
Seu rosto de desespero, sua respiração rápida e ofegante, mesmo no intervalo das contrações.
Fui direto nela, nem perguntei seu nome, disse "Calma, eu estou aqui com você, vou te ajudar". Ela disse "Então me ajuda, pelo amor de Deus".
Fui orientando sua respiração, tentando acalmá-la, tentando aliviar seu desespero.
Aos poucos ela foi aceitando as contrações, passou a relaxar entre elas, se sentiu livre pra se agarrar em mim quando queria, começou a enfrentar bem melhor suas contrações.
Seu rosto ficou mais leve, ela já não puxava os cabelos, pegava nas grades da maca com segurança. Entendeu que ela sabia como fazer e eu estava alí do lado para lembrá-la disso.
Ela conseguiu. Em uma hora e pouco, sem soro, foi de 6 cm para dilatação total.
Eu me vi nela. Meu suor era igual. Minhas expressões eram iguais, tenho certeza.
Como fez falta alguém me dizer "Você consegue". Essa foi a grande diferença entre meu parto e o dela. Eu tive que entender e enfrentar sozinha.
Ela foi, e a Sandra ainda estava lá. Com seu rostinho delicado já expressando dor. O soro estava fazendo efeito, ela sentou e disse que ficaria naquela posição.
Me olhava e só segurava minha mão, sem falar nada. Eu só dizia "Isso Sandra, você está indo muito bem. Concentra e continua assim".
E já estava na minha hora de ir, eu não poderia acompanhar a Sandra.
Mas ela me agradeceu as orientações, e agradeceu por poder olhar as outras meninas enfrentando as dores. Ela disse que estava preparada e que eu poderia ir sossegada.
E eu voltei mesmo sossegada. A Sandra não estava preparada só porque eu a orientei ou porque viu as outras.
Talvez ela nem saiba, mas ela já nasceu preparada...
E assim foi aquela quarta, que por falta de tempo demorei a contar.
Na quarta-feira seguinte eu fiquei por pouco tempo, não estava me sentindo bem. Desci um pouco antes (umas 4 horas) e a coordenadora já veio com indiretas, o que me fez subir novamente, mesmo passando bem mal.
Mas o Dr. foi muito legal, mediu minha pressão (que eu pensei estar baixa) e mesmo estando normal (10/8), ele disse que eu poderia ir, que era pra eu descansar e não me preocupar. Que se a "Dona Coordenadora" falasse qualquer coisa, ele diria que foi ele quem me dispensou e assumiria a "responsa"!
Acabei mesmo vindo embora, dessa vez quem precisou de cuidados fui eu.
Em breve postarei mais relatos. Obrigada pelas visitas!
Ana Carol 12:53 AM
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Sábado, Outubro 16, 2004
Cá estou! Atrasada!!!
O tempo tá cada dia mais curto...
Penultima quarta-feira
4 mulheres na sala de parto. Uma mal deu tempo de perguntar o nome, já chegou a maca. Estava indo para a cesária.
A bolsa rompeu de madrugada e como já eram 2 da tarde, não esperariam mais.
E lá estava a Tamara, no canto. Que menina forte.
Concentrada.
Pra ela foram mais efetivas minhas massagens em seus ombros, onde algumas vezes ela deixava a tensão depois da contração.
Mas ela fazia tudo sozinha, e vez ou outra pegava minha mão e colocava no pé da barriga e só dizia "Aqui".
Ela saberia continuar sozinha. Mesmo sem massagens para alívio, ou sem alguém dizindo que está tudo bem.
Mas sei que minha presença, só alí perto, já lhe trouxe mais segurança e, se havia qualquer medo, foi embora.
Há muito tempo ela estava com dilatação total. Mas o bebê não descia.
15 minutos do lado dela e logo ela foi para a sala de parto.
Ela se sentiu segura, se entregou e o bebê desceu.
A Tamara é uma menina-mulher de 17 anos, muito corajosa.
No outro canto a Maria. Iria "ganhar" o quarto filho. Havia tido um vba2c, ou seja, um parto normal depois de 2 cesárias.
Mas ela disse que foi o pior momento da vida dela, que "judiaram" dela, e ela tem a certeza que seu bebe nasceu com só 3 centímetros de dilatação!
Mesmo eu explicando pra ela que é impossível!
Entendo. Deve ter sido um parto bem traumático e ela prefere entender que foi por isso.
E iria ter uma cesária, pois não tinha sinal de parto. O único sinal era a "gosminha melecada com sangue", isto é, o tampão mucoso.
E ela fez a mesma cara que muitas outras que chegam lá e são internadas com esse "sinal", quando eu explico o que é o tampão e digo que o parto ainda poderia demorar alguns dias.
Aquela cara de "nossa, mesmo?", depois a cara de "que raiva, então eu não precisava estar aqui!".
Eu queria entender o porque de internarem uma mulher apenas pela perda do tampão...
Ainda se todas as induções dessem certo...
Ou se pelo menos não levassem algumas direto pra cesária (o que as vezes acontece)...
A enfermeira disse que é porque já tem dilatação... E daí?
No meio estava a Sandra. Que linda, negra, baixinha demais e com rosto doce, expressões suaves.
A bolsa rompeu de manhã, ela havia chego a pouco tempo e a enfermeira acabara de colocar o soro.
Ela ainda não sentia nada.
mas chorava de medo e me perguntava se tudo ficaria bem.
Eu expliquei que ela está bem, o bebê também e a dor ela suportaria, que eu estaria perto e nós faríamos juntas.
Fui acalmando dizendo para ela relaxar e não ter medo, que as contrações são necessárias para trazer o bebê, que senti-las era normal e preciso.
Mas que ele era forte, como toda mulher, e conseguiria.
Fui então fazer minha visitas enquanto a Maria esperava a maca e a Sandra, esperava as dores.
Continua...
Ana Carol 1:46 PM
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Sábado, Outubro 09, 2004
Amigos!
Vim aqui me desculpar por ainda não ter postado o relato da última quarta feira. Ando muito atarefada mas espero logo ter tempo para escrever (espero que antes da próxima quarta!!!)
Abraços
Ana Carol 11:49 PM
Comments:
Sexta-feira, Outubro 01, 2004
Olá para todos
A última quarta-feira foi mais um dia desta voluntária na Santa Casa.
Como vocês podem ver, hoje já é sexta-feira, quase sábado, e isso mostra que nem sempre conseguirei relatar exatamente no mesmo dia, ou melhor, dificilmente conseguirei relatar no mesmo dia!!! :o)
(recado para quem acompanhará este diário!)
Antes de mais nada, devo dizer que nenhum dia na Santa Casa é igual ao outro, isto é, ainda que o setor seja sempre o mesmo, e as situações bem semelhantes, tem dias em que tudo é bem agitado, noutros, tudo bem tranquilo.
Também não posso deixar de dizer que as coisas por lá não são mais como descritas no relato que postei semana passada. Isso porque fui, digamos, "barrada" em algumas atitudes pela coordenadora das voluntárias e agora minha atuação tem sido bem mais restrita, porém, ainda válida (eu, pelomenos, acho).
Na verdade, levei um "esporro" daqueles e que me fez pensar em desistir até, mas continuei, e cá estou.
As meninas das listas de discussão já estão carecas de ler minhas estórias, inclusive conhecem esse capítulo do "esporro" e por isso não irei entrar em muitos detalhes agora.
Mas estou pensando em postar essa passagem neste final de semana, para os que tiverem interesse em saber o que aconteceu e como está tudo desde então.
Agora chega de blá blá blá e vamos ao que interessa...!
Meu horário na Santa Casa é das 14:00hs às 17:00hs, às vezes, 17:30hs. Nesta quarta cheguei 13:30hs.
Como sempre, subi direto para a sala de pré parto. Pelo jeito, aquela quarta não seria muito agitada...
Haviam apenas duas mulheres, e para mim é ótimo quando só tem 2 pois fica mais fácil dar suporte e atenção. Mas é melhor quando estão, de fato, em trabalho de parto...
Bom, uma delas era a Tamara, 21 anos e mãe de dois filhos, nascidos de parto normal. Nessa gravidez, ela nem sabe o porque, foi avisada no posto de saúde onde fez o pré natal de que, caso até dia 29 de setembro (data prevista do parto) não tivesse nenhum sinal de trabalho de parto, que fosse então para a Sta Casa em jejum. E foi o que ela fez.
Estava lá desde as 10 da manhã, eram quase duas da tarde, estava com soro porém, não havia ainda sentido nenhuma contração.
Estava lá esperando, de molho, "mofando" (como ela mesma definiu)deitada numa maca dura, sem comida e sem bebida, há horas, sozinha, espetada pelo soro.
Estava lá já irritada, sonhando com a hora em que iria beber um copo de água...
Estava lá sem sinal de que o bebê iria nascer. Até porque, convenhamos, não era o dia dele nascer...
A outra mulher era a Roseli. Primeira vez em que vejo uma mulher com problemas mentais prestes a dar à luz.
Ela não respondia quando eu falava com ela, só repetia que havia me chamado e eu não apareci (?), e que estava tendo pesadelos, por isso tinha que ir embora.
Eu tentei conversar mais com ela mas ela parecia não me querer por perto e, apesar de estar com dores, respeitei.
Eu ainda não sabia que ela tinha problemas mentais até então, mas desconfiei pela forma confusa dela falar e difícil de entender, e também quando uma enfermeira entrou e perguntou quantos filhos ela tinha, e ela disse 13. Minutos antes, outra enfermeira fez a mesma pergunta e ela disse que tinha 9.
O pré parto estava mais tranquilo hoje, então resolvi já fazer minhas visitas às recém paridas.
Não parece mas no pós parto também somos muito necessárias. Mesmo para aquelas mulheres que já tem experiência com outros filhos, sempre surgem dúvidas.
E tenho um imenso prazer em ajudá-las, principalmente com a amamentação. É indescritível a sensação que dá fazer um bebê sugar o seio de uma mãe ainda inexperiente, participar e ajudar nesse momento de adaptação.
Ver o bebê satisfeito sugando com vontade o leite, além da expressão de alívio de sua mãe, é simplesmente lindo.
Logo no primeiro quarto que eu entrei, uma mulher chorava. Dizia que era de dor no peito, no lado do coração, e nos pontos da cesária. Ela havia tido um bebe prematuro que estava na UTI. Seu nome era Michele.
Ela queria levantar um pouco mas não conseguia, parecia muito tensa e aflita. Fui tentando acalmá-la, fui orientando sua respiração, dizendo que eu estava alí com ela e que ela precisava aliviar a tensão. Desistiu de levantar pois lhe doía muito os pontos mas ficou mais calma, disse que tentaria dormir um pouco.
Me disse que tinha sopro no coração mas mais tarde a enfermeira disse que não, que ela estava exagerando, que ela só queria atenção. Fosse o que fosse, minha função também é essa, dar atenção, então eu não iria fazer como algumas enfermeiras que ficam bufando e dizendo "que saco".
Nesse mesmo quarto uma outra menina estava aflita, dizendo que queria dar mamadeira, que o bebe chorou a noite toda, que ele não pegava o peito, que ela não tinha leite...
Isso é muito comum de acontecer, mães com esses receios e dúvidas. Em boa parte dos quartos tem sempre alguém com dificuldades. E pra isso estou alí, pra ajudá-las!
Em outro quarto, um momento gostoso! A mãe estava toda atrapalhada para trocar o bebê e pediu para que eu fizesse. Adoro recém nascido, fico lembrando dos meus filhos pequenininhos, dá saudade. Embora minha filha mais nova tenha só 10 meses e ainda seja um bebê, é uma "gigante" perto desses bebezinhos.
E fiz o favor à ela pensando também no bebe, em todos os procedimentos que ele sofreu desde que saiu da barriga da sua mãe, lembrei das enfermeiras do berçario que esfregam o bebe com uma mão enquanto seguram com a outra, com aquela prática, mas sem dó nem piedade! Duvido que não machuque.
Então fui trocando aos pouquinhos, conversando com ele, devagarinho, fazendo carinho,...
Ao menos um momento de bem estar para ele em sua "estadia" na maternidade!!! Tirando os afagos de sua mãe, só o pegavam para testes e exames, ou seja, infinitas picadas de agulha em seu pequeno bracinho (e pezinho)!
Um outro quarto em que fiquei um bom tempo foi no que estava uma policial rodoviária. Ela me contou seus partos, o primeiro uma cesária, os segundo, terceiro e quarto partos foram normais (com os bebes "escorregando", super rápidos) e este último, outra cesária em função de uma laqueadura.
Até aí, caso comum de aparecer na Sta Casa.
Mas o que me chamou atenção foi um problema que ela disse ter tido em todos os partos, do qual eu nunca tinha ouvido falar: Retenção de placenta.
Os médicos explicaram a ela que é um problema raro, onde a placenta adere de tal forma ao útero, que por sua vez a retém, e pode causar sérias hemorragias.
No segundo parto, essa retenção lhe rendeu alguns dias de UTI e 2 paradas cardíacas. Fiquei bege (como diz minha amiga Malu!) !!
Mas é bom saber desses casos e aprender mais um pouco, inclusive, foi bom saber que essa tal retenção de placenta não tem relação com o tipo de parto, tampouco serve como desculpa para o médico fazer uma cesária.
Agora, só pra comentar, essa mulher é uma figura! Sabe aquele papo gostoso com gente bem humorada, alto astral, que até ri de si mesma? A própria!
Num outro quarto, a Letícia. Entra as 5 mulheres que dividiam o quarto, a única sem o bebê. Havia nascido o Gabriel há dois dias e ela estava voltando pra casa sem ele. Não, não falaceu!!! Era só icterícia, mas o choro dela era de luto.
E como me abraçou a Letícia. Chorou muito pois não tem parentes em Mogi, o marido trabalha e ela não poderia ver seu bebê nos dias em que ele ficaria tomando banho de luz pois ela tem dois filhos e não tem com quem deixar.
Minha vontade era de lhe dar meu telefone, ficar com suas crianças, mas eu não posso abraçar o mundo...
Tenho que dar conta dos meus filhos pequenos, o que não é fácil e exige tempo e disponibilidade. Seria impossível fazer qualquer coisa por ela se não, dar meu apoio e compreensão.
Mas acho que ajudei também contando minha experiência, afinal, já tive minha segunda filha tomando banho de luz durante sete dias no hospital, e pelo mesmo motivo, ictirícia por incompatibilidade sanguínea.
No mais, o de sempre. Algumas dificuldades na amamentação que conseguimos resolver facilmente, outras em que minha intuição diz que só será resolvida quando mãe e bebê chegarem em casa, num ambiente tranquilo e aconchegante. Mas deixo orientações, obviamente.
Algums não tem dificuldade alguma, parecem já ter experiência há meses, mesmo sendo o primeiro filho!
Também, como sempre, saio das visitas decepcionada com algumas cesárias.
Das que eu perguntei o motivo:
Foram 2 por presença de mecônio, uma numa garota de 16 anos.
Nas duas a indicação, segundo as meninas, foi feita assim que estourada (artificialmente) a bolsa e constatada a cor do líquido. Sem escutar o coração do bebe, sem concluir se havia sofrimento, só por haver mecônio.
E, acreditem em mim, esse é um dos motivos mais corriqueiros...
Umas 5 (não lembro ao certo) porque "passou da data". Nunca passa mais de 3 ou 4 dias, maaaas...
Nesses casos, o posto de saúde encaminha a gravidez "atrasada" para a Sta Casa e o futuro, ao plantonista pertence!!!
Também tem aquelas (muitas) que vão pra cirurgia porque não tinham a famosa "passagem".
Claro, há aquelas cesárias bem indicadas, e que, sem dúvidas, salvam mulheres e bebês.
Mas o que tenho visto acontecer ainda na sala de pré parto, e também nas visitas nos quartos, me faz ter certeza que uma boa parte dessas cirurgias são absolutamente desnecessárias.
Sim, "desnecesárias" também acontecem no SUS, e muitas.
Para concluir o relato das minhas visitas... Lembram a Michele (que chorava de dor) ?
Seu bebe nasceu prematuro, estava na UTI e seria transferido para Guarulhos.
Nasceu com sérios problemas, eu escutei que uma alça do intestino já estava necrosada e que não havia nada a fazer.
O médico que falou isso ainda disse que o pessoal lá de Guarulhos iria xingar até a quinta geração dele por mandar esse caso pra lá.
Foi tudo o que escutei.
Voltei no quarto dela para saber como ela estava, se a dor havia melhorado.
Ela não sabia que seu bebê estava num estado muito grave e que, segundo o médico, não tinha chances.
Claro, não falei nada até porque, essa tarefa não cabe a mim.
Mas senti que aquela dor era mais que sopro no coração, mais que dor nos pontos, mais que dor no peito.
Era uma dor instintiva, de uma mãe que sentia, e inconscientemente, sabia que seu bebe estava indo...
Uma dor de separação mesmo, de adeus.
Não quero dramatizar muito mas só lembrar dela se contorcendo e esfregando o peito dizendo "dói aqui, olha, aqui" me faz ficar com lágrimas nos olhos.
Ela então reclamou que seu seio estava muito cheio, que precisava ir até lá amamentar o bebê.
Minha reação foi dizer que ela precisava descançar e que, se quisesse, eu ajudaria a tirar o leite.
O seio não parecia tão cheio, mesmo assim fiz bastante massagem e ensinei a ela como apertar a auréola para sair o leite quando estiver cheio.
Eu também apertei e não sairam mais do que algumas gotas amareladas. Mas ela disse que aliviou. Que bom.
Me despedi e voltei para o pré parto, com o coração miudinho.
No pré parto...
A Tamara ainda estava alí, olhando para o nada, sem nenhuma contração.
E lá se foi mais um soro inteiro e nem sinal.
Vocês querem apostar comigo qual foi o final dessa história???
A Roseli continuava com dores. E o parto estava evoluindo muito bem e muito rápido.
A família dela veio em peso para o hospital pedindo pelo amor de Deus para que alguém a operasse pois este era o quarto ano consecutivo em que ela "aparecia" na Sta Casa para parir! Ah, ela tinha 13 filhos mesmo!
Mas segundo o médico, ele não poderia simplesmente operá-la se ela não quisesse (e não queria). Isso porque o parto estava evoluindo super bem, super rápido, tudo mais que OK, não havia nem uma indicaçãozinha sequer para fazer uma cirurgia.
Para operá-la em função da laqueadura, ele precisaria da autorização dela.
Por isso ele entrou alí diversas vezes para tentar convencê-la da cesária.
Mas ela não respondia ao Dr, na verdade, acho que não entendia quando ele perguntava sobre operar. Tenho a impressão que ela não conseguia ligar as coisas (operar = não ter mais filhos).
Ela não falava quase nada mas quando perguntavam se queria mais bebês, dizia alto "Não "fia", quero não. Não quero nunca mais ".
Sei que as enfermeiras também foram recrutadas para tentar convence-la a deixar fazer a cesária. E ela só respondia que não ia deixar não, que tinha medo.
E adivinhem quem foi recrutada também??? BINGO.
Tudo bem, eu vou. Mas como?
Como eu conseguiria convencer alguém a fazer uma cesária? Como eu poderia?
Isso estava indo na contra mão daquilo que defendo e acredito. Mas...
Lá fui eu. Sentei do lado. Perguntei se ela queria mais filhos, ela respondeu que não, de jeito nenhum.
Então eu iria começar a explicar que se ela autorizasse a cirurgia, seria feito um procedimento e que ela não precisaria ter mais filhos.
Mas,
NÃO CONSEGUI.
Senti que eu não tinha esse direito. Eu não poderia.
Sei que a situação era bem crítica e são muitas as coisas para pesar.
Talvez nesse caso os benefícios que essa cesária traria compensassem os riscos.
Mas eu não podia, não dava.
Cheguei a perguntar para o Dr o que ele achava de permitir o parto normal e depois, encaminhá-la para fazer a cirurgia pelo umbigo (uma das empregadas que tive, depois do quinto filho, fez isso).
Ele disse que dificilmente ela conseguiria fazer essa cirurgia na Sta Casa.
Estranho, essa minha ex empregada fez por lá...
De qualquer maneira, eu não iria tentar convencer essa mulher de NADA.
Quem quisesse que se virasse, são tantas as cesárias mal indicadas que já vi por lá, se fosse o caso, que arranjassem um motivo para essa.
Participar de decisões médicas não é meu trabalho, não é? (lembram da D. Maria???)
Fui embora logo depois sem saber o desfecho desse caso...
Antes de ir, uma enfermeira dizia ao Dr :"opera e pronto, não tem querer".
E ele disse: "não posso, ainda mais que ela está com medo, tendo pesadelos. Pode ser um aviso. Imagina se eu faço a cesária e dá alguma coisa, como eu explico?"
Esse doutor opera por mecônio, porque completou 40 semanas, porque o ultrassom deu líquido diminuido, porque a bolsa rompeu e não sentiu dor em 4 horas, porque o soro não fez efeito, porque não dilata de uma em uma hora,...
Mas ele não opera se a mãe tiver pesadelos ou uns outros avisos!!!
Eu gosto desse médico, juro. Ele é bem simpático...
E vim embora pra casa, beijar minha Manuela, esperar minha Julia e meu Pedro voltarem da escola e comer um saco enorme de suspiro caseiro que eu comprei numa bamboniere em frente a Sta Casa.
Mas antes de dormir eu rezo, oro e peço a Deus sua benção. Pra cada uma delas.
Até a próxima!!!
Ana Carol 11:19 PM
Comments:
Quinta-feira, Setembro 23, 2004
Olá a todos
Meu nome é Ana Carolina, moro em Mogi das Cruzes e sou mãe do Padro Victor, da Julia e da Manuela.
Fui me envolvendo com o assunto PARTO a partir do nascimento de cada um dos meus filhos.
Hoje defendo muito o parto natural e humanizado, participo de listas de discussão sobre o assunto, pretendo me formar doula e educadora perinatal (quando me sobrar um tempinho!!!) e atuo como voluntária na Santa Casa de Mogi das Cruzes no setor de Obstetrícia.
O que faço é pouco perante a realidade em que nos encontramos (me refiro ao atual modelo de obstetrícia de nosso país) mas foi a forma que encontrei de fazer minha parte.
Ser voluntária me dá a oportunidade de apoiar as parturientes no delicado momento do trabalho de parto e também, como dizemos nas listas, "plantar a sementinha da humanização" sempre que surge a oportunidade, acreditando sempre que, mesmo entre as pedras, ela possa germinar.
Esse blog será como um diário onde relatarei meus dias de voluntária.
E pra começar, segue abaixo o relato do primeiro trabalho de parto que acompanhei, em 07/07/2004.
Ah, antes deixem eu contar...
Meus filhos nasceram assim: O primeiro nasceu de uma traumática cesária, que me levou ao fundo do poço, de onde eu só saí quando me fiz acreditar que era forte, capaz, poderosa e poderia parir com minhas forças, então prometi a mim mesma que meus próximos filhos nasceriam de parto normal; Na outra gravidez lutei e consegui parir, me senti realizada, porém, decepcionada como as coisas aconteceram naquele hospital e com as intervenções que eu sofri; Foi então que, na gravidez da minha terceira filha, decidi que a receberia em casa, no meu "ninho", com meu cheiro, com parteira, e assim ela nasceu, linda, perfeita e saudável num lindo e emocionante parto domiciliar.
Espero que vocês se divirtam e que a cada dia mais pessoas abracem essa luta pelo direito a um parto natural, humanizado e digno.
Segue então o relato...
Antes de tudo, quero dizer que escreverei aqui o relato do parto da
Daniela, a mulher que acompanhei durante o trabalho de parto.
Muitos outros momentos, bons e ruins, acontecem durante as 3 horas
que passo na Santa Casa. Não vou mentir e dizer que é tudo um "mar de
rosas" porque não é mesmo.
Mas vou contar a melhor parte dessa experiência.
Segue o relato:
Cheguei lá 2:00hs, em ponto! Guardei minhas coisas e subi pra GO.
Nos quartos das recem paridas, tudo ótimo! Quase nenhuma tendo
problemas para amamentar, todas bem humoradas, contando casos de
amamentação prolongada,...
Fiquei super contente!
No pré parto haviam duas moças, a Daniela e outra que não lembro o
nome (vou chamá-la Patrícia).
Vou contar mais ou menos como foi com cada uma.
Patrícia:
3cm às duas da tarde, deitada e com muita dor. Depois de uma
massagem, levantamos, caminhamos, a dor aliviou.
Um pouco antes das 3 da tarde, novo exame de toque, continuava com 3
cm. O médico disse, se em meia hora não evoluir, cesária!
Eu não estava nessa hora (havia ido fazer visitas nos quartos), mas
quando voltei ela contou, sorrindo, que talvez fosse para a cesária
em meia hora.
Eu disse "vc quer normal, não quer? então vamos fazer esse parto
evoluir!"
Ela deu um meio sorriso e eu percebi que a possibilidade da cesária a
agradava. Perguntei "você está com medo?" e ela respondeu "Tô, acho
que eu quero fazer cesária"
Por um minuto passaram vários argumentos pela minha cabeça, inúmeros
motivos e razões para mostrá-la que parto normal é mil vezes melhor
do que cesária. Mas não falei nada.
Não sei se fiz certo ou errado. Mas o que eu poderia fazer em meia
hora?
Meia hora para tentar convence-la de que parto normal é melhor pra
ela e pro bebe, meia hora pra convence-la de que poderíamos ajudar
para que o parto evoluisse, ...
E meia hora para inventar uma "técnica" qualquer e fazer aquele parto
andar caso ela aceitasse tentar...
Em 20 minutos chegou a maca para levá-la ao centro cirúrgico. Dei um
abraço e desejei boa sorte...
Daniela:
Às 2 da tarde, 3 cm. Não estava com muita dor nessa hora, foi quando
resolvi fazer as visitas nos quartos.
Às 3 da tarde, quando voltei, novo exame de toque, 4 para 5 cm.
Já estava com bastante dor.
Antes das 3:20, já estávamos sozinhas na sala.
A partir desse momento, entramos numa conexão inexplicável!Começamos
a caminhar entre as contraçoes, que iam ficando cada vez mais
próximas. A Daniela parava quando vinha a contração e eu sugeri que
ela acocorasse quando a contração viesse.
Então Daniela ficava de cócoras em cada contração, e eu acocorava
junto e fazia massagens nas costas dela.
Quando a contração vinha ela dizia "TÁ VINDO" e já se agachava com os
braços apoiados entre uma cama e outra, de costas pra mim para que eu
pudesse massagear.
E quando ela dizia que estava vindo eu dizia pra ela deixar vir,
deixar acontecer, que era o bebe chegando, ... Eu dizia "isso
Daniela, deixa vir, deixa ela vir, seu bebe está chegando".
Em alguns momentos ela se acocorava no chão de frente para a cama,
segurando nas grades e eu ficava apoiando ela de lado, agachada com
ela.
Algumas vezes ela se apoiava toda em mim e fazia força.
O engraçado é que me peguei em vários momentos fazendo força junto
com ela!
Percebi em um momento que ela segurava o gemido, por algum motivo, e
disse a ela que ela poderia gemer alto, gritar se quisesse, eu disse
pra ela por a dor pra fora.
Então ela gemia mais alto nas contrações, que pareciam demoradas,
não acabavam. Me lembro dela dizendo "tá vindo", se acocorando e
gemendo um "ai" mais alto e prolongado. Ela literalmente começou a
por a dor pra fora!
Daniela estava entregue ao trabalho de parto.
Nessa hora ela começou a dizer que queria fazer cocô, eu disse que
era assim mesmo, não era cocô, era o bebe! E disse que ela poderia
fazer força se quisesse, se estivesse com vontade, que agora estava
perto.
A enfermeira entrou, era super simpática, um amor de enfermeira
(espero que seja ela toda quarta feira!) e pediu para que ela
deitasse para examiná-la. Alguém chamou a enfermeira lá fora e a
Daniela continuou deitada. Ela mesma não quis levantar.
Mas a cada contração ela virava de lado, fechava os olhos e levantava
os braços segurando nas barras da cama, para que eu fizesse massagem.
As contrações pareciam mais fortes, eu já não sabia ao certo o que
fazer, fiquei um pouco tensa sei lá eu por que, a enfermeira não
vinha, a Daniela se virou com a barriga pra cima e começou a fazer
uma força incrível!
Ela já não gemia, só fechava os dentes, segurava com as duas mãos nas
barras da cabeceira da cama e fazia força. Eu não sabia o que fazer
direito, me encostei na barriga dela, massageava dos lados e
dizia "isso Dani, ele tá vindo, vem Ruan, você está chegando".
A enfermeira entrou e disse que ia fazer o toque. Mas nem precisava,
acho eu, já dava pra ver um volume forçando a vagina.
A enfermeira mal colocou o dedo e disse "não faz força agora Daniela,
tô indo pegar a maca, calma aí Ruan!"
A Daniela ficou segurando a minha mão e a grade da maca enquanto a
enfermeira não vinha.
Nossa, e eu alí, sozinha com aquela mulher praticamente parindo na
minha frente!
Eu estava emocionada, deu uma vontade de chorar, de não deixar ela ir
para ver o Ruan nascer.
Gente, é muita energia, é muito emocionante.
A enfermeira chegou com a maca e a levou. Ela me agradeceu sorrindo,
disse tchau e me pediu pra visitá-la depois.
Eu disse que ia dar tudo certo, que depois eu iria visitá-la e
conhecer o Ruan.
Isso eram 4 horas da tarde.
E lá foi a Daniela parir!
Gente, eu não sabia o que fazer, fiquei de um lado para o outro do
corredor, parecia que eu era o pai!!!
Até desci para a pediatria para relaxar!
Quando subi, lá estava o Ruan, lindo, todo coradinho! Chorando
sozinho no berçário :(
E o pai chorando no vidro "babando" no filho!
E eu quase choro também!
Me senti super útil, mesmo. Senti que pude ajudá-la e que minha
presença e incentivo ajudaram até para que o parto fosse mais rápido.
Gente, ela passou de 5 cm para dilatação total em menos de 1 hora!!!
Ok, teve o soro, mas teve eu também! hehe
Logo depois chegou outra parturiente, a Maria José. Uma senhora, ia
parir o quinto filho, a mais velha tem 21 anos.
Mas meu tempo estava acabando, o que por um lado me deu um certo
alívio. Eu não sei se conseguiria ser útil para a Maria José. Eu
estava um pouco "desnorteada", eufórica por causa da Daniela, eu só
pensava nela.
Bom, dei tchau pras enfermeiras, disse "até a semana que vem" e vim
embora.
Não visitei a Daniela pois não havia quarto disponível, então ela
ficaria até quinta feira na enfermaria, e lá eu não posso entrar, só
funcionários tem acesso.
Uma pena, mas tudo bem. Vou gostar de guardar a lembrança do rosto
dela durante o trabalho de parto. Linda, com os cabelos pretos,
enormes e lisos caindo no rosto suado de fazer força.
E ela é muito linda mesmo.
E assim foi meu dia.
Considerações:
Como eu disse, não estamos falando de um hospital humanizado,
tampouco de um parto natural.
Estamos falando de um típico hospital público, onde se faz parto
normal repleto de intervenções e o índice de cesárias é alto.
Daniela passou o tp com o soro, numa sala com mais quatro macas, de
portas abertas uma parte do tempo e, mesmo caminhando, levávamos o
soro nas mãos.
E ela pariu deitada, com episio, com manobra de kristeller, sem
direito a primeira mamada, e com certeza só viu o Ruan horas depois.
Meu "trabalho" foi o de dar apoio e incentivá-la, seja ajudando com
posições, massagens ou com palavras, tentando fazer do trabalho de
parto um momento mais agradável e mais humano.
Por sorte, quem fica no plantão às quartas feiras é um médico bem
legal, que esqueci o nome (apesar de ter escutado um milhão de vezes!
Semana que vem digo pra vocês).
Não estou em hipótese alguma dizendo que ele é humanista, nem sei se
ele já ouviu falar em parto humanizado, se atende em consultório,
qual sua taxa de cesárias,...
Estou dizendo que ele é legal, bem humorado e mais flexível. Só.
Não conversei com ele, mas em nenhum momento ele interferiu no que eu
estava fazendo, me deixou a vontade para ficar com as parturientes,
não proibiu nada que tenha me visto fazer.
Posso falar o mesmo em relação às enfermeiras, que foram super
atenciosas com as duas meninas em trabalho de parto e comigo
(inclusive elas até brincaram dizendo pra eu fazer medicina e me
tornar obstetra, que depois do terceiro desmaio eu estaria pronta
para pegar no batente!!! )
Confesso que fiquei meio sem jeito no começo, eu -ainda- não sou
doula, as vezes é complicado não ter técnicas, não saber ao certo
onde massagear, como falar, o que falar...
Mas durante o tp fui me envolvendo, aos poucos fui sabendo o que
fazer.
E acho que deu certo! :o)
Bom meninas, é isso! Tentei escrever algo curtinho mas simplesmente
não consigo! Sorry se cansei vocês (daqui não sai texto curto, é mais
forte do que eu!!!).
Também tentei escrever um relato isento da minha emoção, mas não
consegui! hehehe
Meu marido diz que tem textos meus que são "mela-cueca"!!!
Mas eu ainda estou pensando na Daniela, né! Deixa eu ser mela-cueca,
pô!
Um beijão
Ana Carol - aprendiz de doula
Ana Carol 11:49 PM
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diario de uma voluntária numa maternidade pública.
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